Brumadinho: Seis anos após a tragédia, cidade busca justiça e reconstrução

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Seis anos após a tragédia de Brumadinho, ocorrida em 25 de janeiro de 2019, a cidade mineira ainda lida com as cicatrizes humanas, ambientais e sociais deixadas pelo rompimento da barragem do Córrego do Feijão. O desastre liberou uma onda de lama de rejeitos de mineração que varreu comunidades, instalações da mineradora Vale e a vegetação local, causando destruição em cerca de 270 hectares ao longo da bacia do Rio Paraopeba. Ao todo, 272 vidas foram perdidas, número que inclui bebês em gestação na época. Até hoje, 270 vítimas tiveram seus corpos localizados e identificados, enquanto duas pessoas seguem oficialmente desaparecidas. O Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) mantém equipes dedicadas à busca desses desaparecidos remanescentes, cumprindo a promessa feita às famílias de prosseguir as buscas até encontrar todos.

Busca incansável dos bombeiros e o legado dos heróis

Desde os primeiros minutos após o rompimento, a operação de resgate mobilizou recursos sem precedentes. Foi a maior operação de busca e salvamento da história de Minas Gerais, com o empenho de bombeiros de 16 estados, Força Nacional, Exército e até uma equipe de Israel, todos sob coordenação do CBMMG. Nos primeiros dias, mais de 400 militares atuaram ininterruptamente na lama na esperança de encontrar sobreviventes e recuperar corpos. “O governador Romeu Zema e a corporação renovaram diversas vezes o compromisso de persistir nas buscas para oportunizar às famílias a chance de encerrar essa fase de forma mais humana”, destacou nota oficial dos bombeiros no marco de mil dias de operações.

A dedicação dos bombeiros rendeu reconhecimento e gratidão dos atingidos. “A gente só tem que agradecer por não largarem as nossas mãos e manter a promessa de permanecerem conosco. Hoje a gente não fala mais em ‘não encontrados’ e sim em ‘não identificados’. Sabemos que eles continuam lá na lama. Falta encontrar os restos mortais para que sejam identificados”, diz Nayara Cristina, viúva de uma das vítimas e diretora da associação de familiares (Avabrum) ao desabafar e mostrar confiante de que a missão será cumprida.

Atualmente, as operações de campo contam com tecnologias inéditas e equipes especializadas para vasculhar os rejeitos remanescentes. A perspectiva é de que as buscas sejam concluídas em breve, com todas as áreas mapeadas sendo finalmente vistoriadas.

Heróis de farda

Entre os milhares de bombeiros que se revezaram em Brumadinho, o bombeiro militar João Antônio de Carvalho Resende, do CBMMG, participou de diferentes fases da operação e relata a marca deixada pela tragédia em sua vida. “Nos dias 3 a 6 após o rompimento, integrei um pelotão comandado pela tenente Cláudia Gonçalves, sob coordenação do coronel Estevão. Conseguimos resgatar 36 corpos na área do Córrego do Feijão. Seis meses depois, voltei à operação, então com o Tenente Pacheco e o coronel Alexandre no comando, para procurar restos mortais das vítimas ainda não localizadas, meu pelotão encontrou apenas roupas e ossadas naquele período.”

Quase dois anos após o desastre, no marco de 1.000 dias de buscas, Resende retornou a Brumadinho em outra função: “Atuei como auxiliar de almoxarifado, ajudando na entrega e acondicionamento de materiais operacionais para os colegas que iam para a linha de frente buscar pelos restos mortais”, explica o bombeiro.

Apesar de não estar mais diretamente na lama, ele sente orgulho de ter contribuído para manter a operação ativa. “Foi uma missão que marcou todos nós; cada bombeiro ali deu o seu máximo, dia após dia, movido pela dor das famílias e pelo dever de oferecer um desfecho digno”, conclui Resende.

Infelizmente, a longa operação de resgate também teve suas próprias perdas. Em outubro de 2024, um helicóptero do CBMMG caiu durante uma missão de treinamento em Ouro Preto, matando quatro bombeiros militares e dois socorristas de saúde. Entre os mortos estavam o sargento Welerson Filgueiros, que havia ganhado destaque internacional ao resgatar com vida uma jovem soterrada em Brumadinho em 2019, além do Capitão Willker, do Tenente Victor e do Sargento Gabriel, todos veteranos da operação Brumadinho, e mais um médico e um enfermeiro do SAMU. A tragédia abalou novamente o Corpo de Bombeiros, que homenageou esses profissionais como heróis que dedicaram a vida a salvar outros. Histórias como a de Welerson, um dos primeiros a chegar de helicóptero à área do desastre e que perdeu a vida na mesma aeronave anos depois, simbolizam a bravura e os riscos enfrentados por aqueles que atuaram incansavelmente em Brumadinho.

Reconstrução, indenizações e memória

Passado o choque inicial, Brumadinho tenta escrever um capítulo de reconstrução. Um acordo judicial histórico de R$37,7 bilhões foi firmado em fevereiro de 2021 entre a Vale, o governo de Minas Gerais e instituições de Justiça, destinando recursos para a reparação dos danos coletivos e difusos causados pelo desastre. Até o início de 2024, cerca de 68% desse montante já havia sido executado em ações de recuperação socioeconômica e ambiental na região. Os recursos financiam dezenas de projetos, incluindo obras de infraestrutura, melhorias em estradas, investimentos em saúde e abastecimento de água, além da revitalização ambiental do rio Paraopeba. Entre as iniciativas, destaca-se a construção de um hospital público regional em Brumadinho, planejado para ampliar o atendimento de saúde na cidade e região com verbas oriundas do acordo.

Na esfera social, a Vale também firmou um acordo trabalhista para compensar individualmente as famílias das vítimas: ficou estabelecido o pagamento de indenizações por danos morais a todos os 272 mortos, incluindo os dois bebês não nascidos, através de adesão voluntária das famílias a um programa de indenização homologado pelo Tribunal Superior do Trabalho. Até meados de 2025, centenas de familiares já haviam aderido e recebido essas reparações financeiras, que variam conforme o perfil de cada vítima e seus dependentes.

No aspecto da memória coletiva, Brumadinho inaugurou neste ano um memorial em homenagem às vítimas. Em 25 de janeiro de 2025, quando a tragédia completou seis anos, foi aberto ao público o Memorial Brumadinho, edificado no próprio cenário do desastre. O espaço de 1.220 m², concebido em diálogo com os familiares, busca preservar a memória das 272 vítimas e transmitir uma reflexão sobre os erros que levaram ao desastre. A construção do memorial foi uma exigência das famílias, que queriam um local de luto e aprendizado para as futuras gerações. O memorial abriga um jardim com 272 ipês-amarelos plantados, um para cada vida perdida, além de paredes com os nomes de todas as vítimas gravadas.

Em cada aniversário do desastre, às 12h28, hora exata do colapso da barragem, um feixe de luz solar incide sobre um monumento de cristais no interior do memorial, simbolizando as “joias” que se foram e mantendo vivo o compromisso de nunca esquecer. Este projeto foi feito para ser um espaço visitado e visto como gesto de superação.

Enquanto a cidade se refaz com ajuda desses investimentos e iniciativas, as marcas psicológicas e sociais persistem. Serviços de apoio psicossocial continuam atendendo moradores afetados, muitos dos quais desenvolveram traumas e problemas de saúde mental após a tragédia. Economicamente, Brumadinho busca diversificar suas atividades, historicamente ligadas à mineração, investindo no potencial turístico (principalmente o Instituto Inhotim, museu de arte contemporânea a céu aberto que fica no município) e em novos empreendimentos incentivados pelos programas de reparação.

Pequenos agricultores também recebem suporte para recuperar suas terras antes tomadas pela lama ou contaminadas. Ainda assim, para muitos atingidos, nenhuma medida de reparação parece suficiente para preencher o vazio deixado em 2019.

Luta por justiça e mudanças no setor de mineração

Se na frente da reparação material houve avanços, no campo da responsabilização penal e mudanças estruturais os resultados são lentos. A investigação criminal envolvendo a Vale e a empresa de consultoria alemã Tüv Süd (que atestaram a estabilidade da barragem) arrastou-se por anos, mudou da Justiça estadual para a esfera federal e enfrenta uma série de recursos. Dos 16 denunciados inicialmente, entre eles o então diretor-presidente da Vale, Fábio Schvartsman, nenhum foi definitivamente responsabilizado até agora. Em 2022, Schvartsman chegou a obter um habeas corpus que o retirou da condição de réu, aumentando a revolta dos familiares.

O cenário de impunidade aprofunda a dor de quem perdeu entes queridos. “Reparação para nós é a responsabilização criminal, a identificação de todas as joias (vítimas) e a mudança do atual sistema predatório de mineração. Isso para nós seria a reparação”, afirma Andresa Rodrigues, presidente da Avabrum, referindo-se à necessidade de punição dos culpados e de reformulação na legislação e fiscalização sobre barragens.

As famílias organizadas em torno da Avabrum seguem atuando em múltiplas frentes: cobram justiça nos tribunais, participam de audiências públicas e pressionam por leis mais rigorosas para o setor minerário. A tragédia de Brumadinho levou o Congresso Nacional a discutir atualizações na Política Nacional de Segurança de Barragens e vários estados (inclusive Minas Gerais) a banirem ou acelerarem a descaracterização de barragens a montante, o mesmo tipo da que colapsou em Brumadinho.

A Vale, por sua vez, afirma ter reforçado seus controles de segurança e já eliminou mais de 40% de suas barragens a montante desde então, com previsão de concluir o descomissionamento de todas elas nos próximos anos.

Seis anos após o mar de lama, Brumadinho tenta seguir em frente sem esquecer um só dia o que aconteceu. A sirene de alerta que nunca soou naquele 25 de janeiro de 2019 hoje dá lugar a homenagens silenciosas. Em cada missa, cada encontro de familiares ou cerimônia no memorial, os nomes das 272 vítimas são recitados como lembrança de vidas interrompidas e como um apelo: que desastres assim nunca se repitam.

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